sexta-feira, 29 de maio de 2020

Explicando o dashboard (2) - Gráficos, parte I

Abaixo da grande tabela há dois gráficos.

O primeiro gráfico mostra o total de óbitos por dia, com a quebra por região. Por causa da concentração de óbitos no Sudeste, a região aparece dividida em três: São Paulo, Rio de Janeiro e demais estados (Minas Gerais e Espírito Santo). A escala à direita é em milhares.


Nota-se pelo gráfico que a participação de São Paulo no total vem caindo, o que era esperado. Por ser o primeiro estado atingido, concentrou no início a maior parte dos casos e óbitos resultantes. À medida que o vírus se espalhou, outras áreas passaram a ter casos (e consequentes óbitos), diminuindo a proporção do estado.
Outro detalhe que chama a atenção no gráfico é o pequeno número de óbitos tanto no Sul quanto no Centro-Oeste. As duas regiões aparecem como minúsculas barras.

Ao lado está o gráfico que mostra a situação dos casos registrados. Eles podem permanecer ativos ("em acompanhamento") ou terem se encerrado, com o paciente recuperado ou ido a óbito.


 Após a inversão no final de abril das curvas dos casos "em acompanhamento" com a de "recuperados", o gráfico tornou-se praticamente três linhas paralelas ao eixo horizontal.
A proporção de óbitos em relação ao total depende da quantidade de testes. Mais testes e ela é menor,poucos testes, ela é maior. Assim, as outras duas curvas é que são relevantes para  acompanhar a evolução da epidemia. O final da epidemia se caracteriza com a curva de casos em acompanhamento atingindo o valor zero. Variações abruptas do número de testes aplicado pode causar distorções na curva, seja por um salto de recuperados, com a identificação de pessoas contaminadas, mas já recuperadas ou nos caos em acompanhamento pela identificação de mais casos, especialmente os com sintomas leves e assintomáticos.



Explicando o dashboard

Um dashboard deve ser auto-explicativo. O leitor tem de entendê-lo sem nenhum auxílio externo. Seu propósito é transmitir as informações relevantes de forma clara, direta e rápida. Basta correr os olhos sobre ele para se extrair o que deseja.

Não custa, porém, ajudar o leitor a compreendê-lo em detalhes para uma apreciação mais profunda.

O primeiro elemento do dashboard é a tabela com a atualização diária de casos e óbitos, novos e acumulados. Porém, os números são enriquecidos com figuras e elementos complementares para agregar mais informações e perspectiva.



Números são o elemento básico da tabela e são apresentados em colunas para casos novos, óbitos novos, casos acumulados e óbitos acumulados. A ordenação é feita pelos critérios de região e, dentro dela, por óbitos acumulados, de forma decrescente.

Há a coluna "N/T" relativa aos óbitos. Indica a proporção de novos óbitos sobre o total. Quanto maior o valor, mais rápida a epidemia se expande. 

No entanto, um número seco não informa muito. Por exemplo, Ceará e Distrito Federal tiveram em um dia quase o mesmo número de casos novos (546 e 539). Situações equivalentes? Os pequenos gráficos representando os últimos dez dias ao lado mostram que não. Há uma queda no estado nordestino, enquanto a capital está com tendência oposta. Pelos gráficos de valores acumulados nota-se se o crescimento é acelerado ou está se estabilizando.


As informações são complementadas com mapas da região, com estados coloridos com intensidade relativa aos óbitos por milhão - quanto mais escuro, maior o indicador.
Pequenas setas com fundo colorido indicam a tendência de novos casos e óbitos, calculada como a média de sete dias do dia mais recente em comparação com a média do dia anterior. O resultado pode ser de queda acentuada (-10%), queda moderada (entre -10% e -3%), estável (de -3% a +3%), alta moderada (+3% a +10%) e alta acentuada (+10%).
Por fim, são apresentados os casos e óbitos acumulados por milhão de habitantes, para permitir uma comparação levando em conta a população de cada estado. A escala de cor indica se um estado está bem (verde para o menor número) ou mal (vermelho para o maior) em relação aos demais.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Plano São Paulo: bom, mas traz uma sinuca de bico


O governo do Estado de São Paulo anunciou ontem o “Plano SãoPaulo”, para reabertura de setores da economia durante a quarentena de enfrentamento ao coronavírus. A partir de 1º de junho, índices de ocupação hospitalar e de evolução de casos em 18 regiões do estado vão definir cinco níveis restritivos para a retomada de atividades. Critérios médicos e epidemiológicos serão adotados para definir a fase de cada região, visando uma retomada “segura e gradual”, nas palavras do governador João Dória.

O plano segue, de forma geral, as linhas adotadas nos países que estão fazendo a desescalada de medidas restritivas, com vistas ao retorno de uma vida normal. Os passos são graduais, cada fase diminui as restrições vigentes, com calendários distintos em função da situação local. Serve como balizador das ações a serem tomadas pelas prefeituras, que terão autonomia para flexibilizar setores estabelecidos. Haverá dois pré-requisitos para a flexibilização: adesão aos protocolos de testagem e apresentação de fundamentação científica para a liberação.
Fonte: Governo do Estado de São Paulo

Estão previstas cinco fases, com intensidade cadente de restrições, da vigente Fase1 “Alerta máximo”) com liberação apenas para serviços essenciais até a Fase 5 (“Normal controlado”). Uma região só poderá passar a um maior relaxamento após 14 dias da mudança de fase, desde que mantidos os indicadores de saúde estáveis. Poderá haver reavaliação e a região voltar uma casa ou mais, caso os critérios estabelecidos não sejam atendidos.

Fonte: Governo do Estado de São Paulo



As regiões são as áreas de cada Departamento Regional de Saúde (DRS), com exceção da XI – DRS da região metropolitana de São Paulo, separada entre capital e demais municípios. Quatro regiões iniciam na fase 3 (“Flexibilização”) e três estacionadas na fase 1. A capital foi para a fase 2, junto com outras dez regiões. A divisão de fases na Grande São Paulo gerou reclamações de prefeitos. São Bernardo, por exemplo, alega ter indicadores melhores do que a capital e por isso não faria sentido ter de manter restrições maiores.









Fonte: Governo do Estado de São Paulo
A passagem de uma fase para outra dependerá de critérios de capacidade do sistema de saúde e da evolução da epidemia, cada uma com indicadores. Para a capacidade do sistema de saúde, os indicadores são (i) Taxa de ocupação de leitos UTI COVID e (ii) Leitos UTI COVID / 100 mil habitantes. A evolução da epidemia é monitorada pelos números de casos, internações e óbitos.
Falta, no entanto, um maior detalhamento de como será a abertura com restrições de cada setor. Há os protocolos sanitários para cada atividade (disponíveis no site do governo), mas a comunicação poderia ser melhor. Ações do governo, como testes em massa, não são apresentados, afora a menção às realizadas na área de saúde (como hospitais de campanha, contratação de profissionais e aquisição de testes e respiradores).
Um ponto que desperta dúvidas no plano é o tempo. Seriam medidas precipitadas, pois o número de casos e óbitos segue crescendo? Ou já deveriam ter sido tomadas e poderiam ser mais liberais? É o dilema que governantes do mundo inteiro enfrentam no momento. Como liberar as atividades sem colocar em risco a saúde das pessoas. No caso de São Paulo, observando a evolução das médias móveis parece que estamos no pico de casos e próximo a isso dos óbitos. Considerando que existe uma defasagem entre eles e que após o pico de casos a propagação diminui significativamente, não parece ser tão prematura a abertura.




A queda abrupta de novos casos após o pico pode ser visualizada nos gráficos ao lado, referentes à Alemanha. É usada como exemplo pela frequência e regularidade de testes, o que permite uma indicação mais nítida da evolução do número de casos.
O programa de testes em massa da população começou cedo, mantendo desde meados de março algo como 50 e 60 mil testes diários. No total, já foram quase quatro milhões de testes, cerca de 5% da população testada. Percebe-se que há um intervalo de dezesseis dias entre o pico de casos e o pico de óbitos. Além disso, quando há o pico de óbitos, o número de casos novos já está em queda livre.

Só que o exemplo da Alemanha também mostra outra questão, justamente o calcanhar de Aquiles do Plano São Paulo e que poderá colocar o estado em uma sinuca de bico: testes.

O Brasil está entre os países que menos testa no mundo. De acordo como o site Worldometers, foram quatro mil testes por milhão de habitantes. Países europeus como Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido estão acima de 40 mil testes por milhão. Até Peru (27 mil), Chile (27 mil) e Turquia (22 mil) testaram proporcionalmente muito mais. Dentre os países com mais de 30 mil casos registrados, só quatro fizeram menos testes por milhão de habitantes: México, Índia, Paquistão e Bangladesh. (Observação: não há dados da China.)
Com resultado, o Brasil apresenta uma elevada taxa de casos registrados em relação ao número de testes feitos: há quase um caso para cada dois testes. É um índice muito superior dos demais países. Quem mais se aproxima é o Equador e o México (quase um caso para cada três teste).

A consequência é que à medida que começar a haver testes em larga escala o número de casos deve disparar. Não porque existam novos casos, mas simplesmente por passar a identificá-los. Como visto, um dos indicadores da evolução da epidemia para permitir a mudança de fase de uma região é o número de casos e as prefeituras terão que aderir aos protocolos de testagem. Se testarem, vão achar. Se achar, não pode mudar de fase ou, pior, pode retroceder. E agora, João?

O plano vai funcionar? É uma incógnita. Não é o primeiro estado que planeja uma abertura gradual. O Rio Grande do Sul começou algumas semanas antes, mas com um número muito menor de óbitos e casos. 
O desenho não é inovador, mas traz o básico do que tem sido implantado em outros lugares. Vai depender da colaboração da população e de algumas medidas mais efetivas do governo, principalmente que não se façam bobagens como o rodízio de 24 horas de carros pares/ímpares, bloqueio de vias e coisas do tipo.  


(Alguns números estranhos ditos na apresentação do programa ficam para outro post.) 





terça-feira, 12 de maio de 2020

Revendo as ondas

Algumas semanas atrás foi abordada a difusão em ondas pelo globo da pandemia. Naquela data, os países do sul da Europa e da Oceania eram os únicos que já estavam em queda pronunciada, enquanto os demais países da Europa Ocidental começavam a apresentar uma diminuição no número de óbitos. As demais regiões estavam em tendência crescente.
A tendência de queda segue no sul da Europa (basicamente Itália e Espanha) e nos demais da Europa Ocidental. Na Oceania, a epidemia está no final, com dias sem registro de novas mortes.Na América do Norte, há a diminuição de óbitos, embora em ritmo menos pronunciado.

Fonte: ECDC, análises CORONAdiário

A América do Sul e a América Central & Caribe, porém, destoam, como as únicas regiões com nítida trajetória de alta. Nas demais, há um platô com peculiaridades regionais. No Leste Europeu, houve um crescimento, mas se estabilizou, assim como na Ásia, em que houve um pico em meados de abril por causa do reconhecimento tardio na China de mais de mil mortes anteriores.

Fonte: ECDC, análises CORONAdiário

Na África, porém, a epidemia segue a passos lentos. Há diversas hipóteses para tal, como pode ser visto nessa matéria da BBC. Entre os motivos estariam o baixo nível de integração com o resto do mundo, a experiência regional de controle de epidemias, a adoção rápida de medidas preventivas  e por ser, em sua maioria,  uma população jovem. Não são explicações excludentes, mas complementares. Além disso, há a diferença de abordagem entre os mais de cinquenta países do continente, que vão da negação até o controle rigoroso, sem que se possa colocar tudo em um mesmo saco.
Os países mais atingidos (África do Sul, Argélia e Egito) são aqueles com mais contato com o restante do mundo. Na África Ocidental, as medidas para contenção de outras epidemias, como o ebola, puderam ser colocadas em prática contra a nova ameaça, além de contar com uma população acostumada a tais ações.

Na Ásia, cada região do continente apresenta um padrão diferente. O leste asiático (que inclui China, Japão e Coréia) foi a primeira região atingida, mas também onde se implementaram cedo medidas preventivas. Na Ásia Central (basicamente Irã, na divisão adotada), houve um surto cedo, mas em fase final. No Oriente Médio, o surto ocorreu posteriormente, mas o pico parece coisa do passado. No sudeste asiático (que inclui o subcontinente indiano), os números de óbitos por milhão são pequenos, em parte pelo divisor ser enorme, pois na região estão alguns dos países mais populosos do mundo, como Índia, Paquistão, Indonésia e Bangladesh. O número de mortes, porém, está em uma escalada, fazendo da área um potencial foco futuro da epidemia.

Fonte: ECDC, análises CORONAdiário

domingo, 10 de maio de 2020

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Menos, prefeito, menos

"Todas as ações que nós tomamos na cidade, desde fevereiro, fizeram com que a gente evitasse 30 mil mortes", afirmou o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, em matéria publicada no G1 ao anunciar o rodizio ampliado de veículos na cidade.
Não, senhor prefeito, isso não ocorreu. Não foram evitadas 30 mil mortes. Políticos exagerarem os números em suas declarações é comum e a imprensa publicá-los acriticamente também. Não é preciso o uso de matemática muito avançada para ver que há um exagero flagrante nas palavras do alcaide.
Pelos dados divulgados hoje pela Secretaria de Saúde do estado, são 24.273 casos registrados e 1.986 óbitos na cidade. Ele está falando, portanto, que as mortes seriam multiplicadas por 16 (as duas mil ocorridas, para arredondar, mais as 30 mil "evitadas").
Pode-se começar com comparações simples:  é o  equivalente aos mortos de Itália, Espanha, França, Reino Unido e do estado de Nova York. Seria plausível atingir esse patamar em um curto período de tempo, o mês e meio em que vigoram restrições na cidade?
Poderia ser levantadas duas objeções a esse raciocínio. A primeira seria que as mortes evitadas não se referem ao período e sim durante toda a epidemia. Com a redução da circulação de pessoas, há menos contaminação e o total de infectados e óbitos seria, no final, bem inferior.
A segunda é que nos locais citados houve (e ainda há) restrições à circulação das pessoas e que sem elas o número seria muito mais elevado.
Objeções às objeções: pela construção da frase do prefeito, as mortes foram evitadas, passado, e não uma ação corrente, incluindo o passado, presente e futuro. Mas pode-se conceder que o sentido da frase se referia ao período inteiro da duração da pandemia.
Quanto ao segundo ponto, vamos aos números. A cidade de São Paulo tem 12,3 milhões de habitantes pelas estimativas do IBGE. Trinta mil pessoas correspondem a 0,24% da população. Na Itália e na Espanha, morreram 0,05% dos habitantes.Ou seja, seria algo como se nesses países morresse o quíntuplo de gente para se chegar apenas ao números de mortes evitadas. O país com a taxa de letalidade mais alta em relação à população é San Marino com 0,12% - a metade do percentual "salvo" da população.
Como a taxa de letalidade do vírus deve ser algo entre 0,1% e 0,8%, teria de haver uma contaminação generalizada para que o cenário evitado fosse plausível.
De acordo com as palavras, todo esse salvamento de vidas foi possível com medidas brandas de restrição de circulação de pessoas, o que, como mostramos em um post sobre o Stringency Index da Universidade de Oxford, tem impacto moderado no espraiamento do vírus. Muitos países só conseguiram conter a epidemia quando adotaram ações mais drásticas.
Para completar, outra questão lógica: faz sentido restringir o uso de carros e com isso forçar o uso de transporte público, inclusive por pessoas que precisam trabalhar por estarem entre os serviços essenciais? Não seriam os ônibus e trens locais mais propícios para a contaminação do que o carro? Mas essa é outra discussão.

Atualizando: Nossos vizinhos

Há três semanas comentamos aqui de como estavam os nossos vizinhos da América do Sul. E como estão hoje? Com exceção do Suriname, que segue com uma morte computada, e as Falklands, sem fatalidades, nos demais houve o crescimento do número de óbitos (em até 469% no caso do Peru).
Em termos de ranking, poucas alterações de posições. O Chile ultrapassou a Argentina, o Uruguai ficou à frente da Venezuela (estavam empatados), que foi alcançada por Guiana e Paraguai. Brasil, Equador e Peru que apresentavam o maior número de mortos foram os países com o maior crescimento proporcional (acima de 300% para todos eles). 


Fonte: ECDC, análises CORONAdiário
Nota: os círculos são proporcionais ao número de óbitos. 
Os círculos claros representam os óbitos de 16/04

Os países adotaram medidas restritivas, em grau variado e em datas diferentes, como mostra o stringency index, calculado pelo projeto Government Response Tracker da Universidade de Oxford.  Não há, porém, uma relação entre a dureza das medidas e os resultados. A Argentina é um dos países com menos restrições na região, mas apresenta uma taxa baixa de óbitos, enquanto o Peru e o Equador estão na situação oposta: amplas restrições, mas muitas vítimas. Um dos motivos é que não basta colocar no papel restrições draconianas se não houver um aparato capaz de garantir seu cumprimento. O Equador é um exemplo claro. Apesar das medidas legais duras, boa parte da população não as segue. Enforcement tem mais peso do que regras.


Outra ação importante é a aplicação de testes na população. Há os países que testam muito (apenas três: Venezuela, Chile e Peru) e os que testam pouco (os demais).
Outra divisão é em relação à taxa de óbitos por milhão: há um grupo com poucos mortos e outro com muitos (três países: Brasil, Peru e Equador). Há dois países que se destacam nesse critério: a Venezuela, com um número oficial de 0,4 óbitos/milhão e o Equador - acima de 90, tão díspar dos demais que no gráfico abaixo a escala teve de ser cortada para facilitar a visualização.


Da relação entre essas duas variáveis formam-se quatro grupos. Há o grupo que (I) testa muito e morre pouco (Chile e Venezuela), (II) que testa e morre muito (Peru), (III) que testa pouco e morre muito (Brasil e Equador) e (IV) o que testa e morre pouco (os demais). Alguns países podem testar pouco por terem poucos óbitos e estarem com uma situação controlada. Talvez seja essa a situação do grupo IV. Paraguai, Uruguai e Bolívia não chegam a uma centena de mortos. O grupo II costuma ser o caso de países envolvidos em uma epidemia que se alastra e começam a testar massivamente para estarem a par da situação.

Outra relação importante é entre a taxa de óbitos e o percentual de idosos na população, a parcela mais suscetível a sucumbir ao vírus. Três países sul-americanos têm mais de 10% de sua população com 65 anos ou mais, os três com baixa taxa de óbitos até o momento. Pode ser que seja ainda o início da epidemia ou pode ser que Chile, Argentina e Uruguai responderam de forma adequada.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Uma breve análise da epidemia

Após mais de um mês de CORONAdiário, é hora de fazer uma análise ainda que breve, da pandemia. Os números de casos e óbitos acumulados ocupam a maior parte das notícias, mas após o pico, os dados diários ganharam importância. A avaliação dos números de cada dia permite uma visão mais adequada da evolução e estágio da epidemia. Para ilustrar a análise, a Itália foi escolhida como exemplo.
No conjunto de gráficos à direita estão os testes efetuados, os casos registrados e os óbitos de cada dia. Os dados reais estão representados pelos pontos e as linhas são as médias móveis de sete dias, para tornar mais nítida a trajetória, amenizando as oscilações diárias.
À medida que a epidemia evoluía foram realizados cada vez mais testes. No início de março não chegavam a cinco mil por dia. Abril começou com mais de 40 mil testes diários e terminou com 60 mil. Ao todo, a quantidade de testes realizada na Itália equivale a 3,6% da população. Foram, até o começo de maio, 2,2 milhões de testes para 60 milhões de habitantes. Uma ressalva importante: o número de testes não representa a população testada, pois um indivíduo pode ser testado vários vezes, mas é um indicativo. Não é explícito também se os testes foram para identificar a presença do vírus no organismo (que indica se está infectado, em um caso ativo) ou de anticorpos (que pode identificar se a pessoa já esteve infectada e se recuperou). Há também as outras questões já mencionadas sobre falsos negativos.
Fonte: ECDC, elaboração própria
Notas:
* pontos: dados originais
* linhas: médias móveis de sete dias
Com os testes foram sendo identificados cada vez mais casos, até o pico em meados de março. A curva de óbitos subiu com um ligeiro atraso, em função do lapso de tempo entre contaminação, identificação da doença e falecimento. O pico de mortes foi no final do mês. Após o pico, as duas curvas começaram a declinar.
No período de ascensão da curva de registros, os testes eram aplicados basicamente em pessoas com suspeita de infecção, em função da restrição de recursos. Com isso, houve dias em que a taxa de positivos beirou os 40%. No pico, os resultados positivos equivaliam a mais de 20% do total (ver linha cinza no gráfico ao lado, que representa o resultado acumulado dos testes). O número de testes, porém, não foi reduzido. Continuou crescendo e, como resultado, o número de testes positivo despencou. Outro efeito é que com mais testes aumentou o número de casos de pessoas com sintomas leves ou assintomáticas identificadas. (O número de casos registrados em qualquer lugar é função da quantidade de testes realizados. Resumindo, se testar vai achar.) No início de maio, cerca de 3% dos testes dão resultados positivos e o acumulado beira 10%.

Fonte: Oxford COVID-19 Government Response Tracker, ECDC
Nota: Stringency Index - indicador de restrições adotadas
A queda observada, porém, não se deu pelo esgotamento natural do crescimento da epidemia. As medidas restritivas implementadas tiveram sua participação. No entanto, apenas quando elas se tornaram mais severas que foi observado um resultado efetivo. O gráfico ao lado mostra o grau de restrições de acordo com o Stringency Index, um indicador de medidas calculado pelo projeto Government Response Tracker da Universidade de Oxford. As primeiras iniciativas não foram capazes de evitar a subida do número de óbitos. Apenas quando foram adotadas medidas mais drásticas que houve impacto. Há um intervalo entre a adoção das medidas e a queda na curva. O afundamento da curva após o pico é um indício de uma queda não-natural.

Fonte: ECDC
As curvas de letalidade mostradas ao lado são outro indicador da evolução. Conforme mencionado em outras edições, há diversas formas de estimar a taxa de letalidade. A forma simples é a mera divisão do número de óbitos pelo número de casos (representada na linha cinza). essa fórmula funciona no final da epidemia, mas durante sua evolução não é um bom indicador, pois não considera o intervalo de tempo entre a identificação de um caso e o falecimento. Por isso, uma alternativa é calcular tomando como divisor o número de casos de alguns dias antes. Para o cálculo foi adotado sete dias de intervalo (representado pela linha vermelha).
No início a taxa de letalidade com retardo de tempo chegou a apresentar taxas superiores a 100%, o que significa que em um dia o número de óbitos era superior ao total de casos identificados sete dias antes. Com o aumento da identificação de casos (resultado do incremento do número de testes), essa taxa despencou, oscilou ao redor de 25%, até assumir uma lenta trajetória de queda. Enquanto isso, a taxa de letalidade "convencional" foi subindo lentamente. Como o número de novos casos subia em ritmo exponencial (de fato e não figura de linguagem), apresentava valores relativamente baixos. Com a epidemia caminhando para o seu final, as duas curvas convergem, conforme esperado (esse é outro bom indicador de sua fase terminal), com 210 mil casos registrados e 29 mil mortes.

Porém, é factível essa taxa de letalidade? Essa é uma das perguntas que surgem. Outras são: qual será a contagem final de óbitos? Qual o real número de contaminados? Deixamos aqui a parte descritiva e passamos à especulação.

Das perguntas acima, a mais fácil de responder é do número esperado de mortos: entre 33 e 36 mil no total, ou seja, algo entre mais três e seis mil vítimas, com 90% delas nos próximos trinta dias e o restante em mais trinta dias, sem contar eventuais revisões de falecimentos passados. Após esse período deverá haver alguns casos (e falecimentos residuais). Fonte: cálculos próprios (a serem apresentados em uma edição futura). Em outras palavras, a Itália, já na fase final de epidemia, deve ter tantas mortes quanto o Brasil teve até agora. A curva de descida é lenta e mais gorda do que na subida, pois há um acúmulo de casos dependente de resolução, em função do período que as pessoas ficam infectadas. Grosso modo, o número de mortes até o pico é de apenas um terço do total; dois terços falecem na fase descendente.
Se esses números assustam, deve-se considerar que são quase 100 mil casos ainda ativos, dos quais 1,5 mil críticos. Olhando de outra forma, isso significa uma mortalidade remanescente entre 3% e 6% dos casos, considerando que novos infectados ainda serão identificados. Essa taxa é inferior à verificada até o momento.
Isso nos leva às outras duas questões - se a taxa de letalidade observada é factível e o número real de contaminados - que estão interligadas. A taxa de letalidade, afinal, é o número de falecidos dividido pelo total de contaminados. Minha opinião, curta e grossa: não, a taxa real de letalidade é muito inferior e, por consequência lógica, o número de contaminados é muito superior.
É fácil justificar a afirmação. Como visto, foram testados até o momento algo como 3,6% da população, o que resultou na identificação dos 210 mil casos. Caso se testasse a população inteira, quantos seriam? Supor nenhum caso a mais não é realista. Seria mantida a proporção acumulada de 9,7% de testes positivos? Ou algo mais próximo das taxas recentes de 3%?
Com a primeira hipótese haveria algo como 5,8 milhões de contaminados e uma taxa de letalidade de 0,6%; na segunda, seriam 2,0 milhões com uma taxa de 1,7%. A se confirmar qualquer uma dessas taxas (ou algum valor entre elas), ainda assim será um número elevado. Estimativas similares feitas para outros países em fase final da epidemia e com elevado número de testes (3% ou mais da população)  indicaram uma taxa de letalidade com valores entre 0,1% e 0,8%. Esses resultado são compatíveis com a pesquisa de campo conduzida pela Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) que estima uma taxa de 0,33% no Rio Grande do Sul (e um caso identificado para cada 26).

O número de casos registrados pouco significa em uma epidemia a qual, por definição, todos estão suscetíveis. Se são testados apenas as pessoas com sintomas ou suspeitas, apenas uma parcela será identificada. Com elevado número de infectados assintomáticos, a maior parte passa abaixo do radar das estatísticas. Para evitar essa distorção, pesquisas por amostragem (como o caso da Ufpel) são boas ferramentas. Ou então usar os números de testes em massa e fazer alguns cálculos. Só não serve usar o número de casos de forma cega. 






Até onde vai o platô?

Um leitor perguntou ontem por e-mail: quanto tempo dura o platô? A r...