"Todas as ações que nós tomamos na cidade, desde fevereiro, fizeram com que a gente evitasse 30 mil mortes", afirmou o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, em matéria publicada no G1 ao anunciar o rodizio ampliado de veículos na cidade.
Não, senhor prefeito, isso não ocorreu. Não foram evitadas 30 mil mortes. Políticos exagerarem os números em suas declarações é comum e a imprensa publicá-los acriticamente também. Não é preciso o uso de matemática muito avançada para ver que há um exagero flagrante nas palavras do alcaide.
Pelos dados divulgados hoje pela Secretaria de Saúde do estado, são 24.273 casos registrados e 1.986 óbitos na cidade. Ele está falando, portanto, que as mortes seriam multiplicadas por 16 (as duas mil ocorridas, para arredondar, mais as 30 mil "evitadas").
Pode-se começar com comparações simples: é o equivalente aos mortos de Itália, Espanha, França, Reino Unido e do estado de Nova York. Seria plausível atingir esse patamar em um curto período de tempo, o mês e meio em que vigoram restrições na cidade?
Poderia ser levantadas duas objeções a esse raciocínio. A primeira seria que as mortes evitadas não se referem ao período e sim durante toda a epidemia. Com a redução da circulação de pessoas, há menos contaminação e o total de infectados e óbitos seria, no final, bem inferior.
A segunda é que nos locais citados houve (e ainda há) restrições à circulação das pessoas e que sem elas o número seria muito mais elevado.
Objeções às objeções: pela construção da frase do prefeito, as mortes foram evitadas, passado, e não uma ação corrente, incluindo o passado, presente e futuro. Mas pode-se conceder que o sentido da frase se referia ao período inteiro da duração da pandemia.
Quanto ao segundo ponto, vamos aos números. A cidade de São Paulo tem 12,3 milhões de habitantes pelas estimativas do IBGE. Trinta mil pessoas correspondem a 0,24% da população. Na Itália e na Espanha, morreram 0,05% dos habitantes.Ou seja, seria algo como se nesses países morresse o quíntuplo de gente para se chegar apenas ao números de mortes evitadas. O país com a taxa de letalidade mais alta em relação à população é San Marino com 0,12% - a metade do percentual "salvo" da população.
Como a taxa de letalidade do vírus deve ser algo entre 0,1% e 0,8%, teria de haver uma contaminação generalizada para que o cenário evitado fosse plausível.
De acordo com as palavras, todo esse salvamento de vidas foi possível com medidas brandas de restrição de circulação de pessoas, o que, como mostramos em um post sobre o Stringency Index da Universidade de Oxford, tem impacto moderado no espraiamento do vírus. Muitos países só conseguiram conter a epidemia quando adotaram ações mais drásticas.
Para completar, outra questão lógica: faz sentido restringir o uso de carros e com isso forçar o uso de transporte público, inclusive por pessoas que precisam trabalhar por estarem entre os serviços essenciais? Não seriam os ônibus e trens locais mais propícios para a contaminação do que o carro? Mas essa é outra discussão.
quinta-feira, 7 de maio de 2020
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