quarta-feira, 22 de abril de 2020

As ondas da epidemia

A difusão do coronavírus pelo mundo ocorreu ao longo do tempo, de forma que os países encontram-se em situações distintas. Os primeiros países atingidos, como China e Coréia do Sul, parecem estar na fase final da epidemia. Os países europeus, por sua vez, vêem lentamente o número de casos e óbitos caírem. Outras regiões, contudo, parecem enfrentar agora a fase inicial de crescimento exponencial de casos e mortes. É como se as diferentes áreas fossem atingidas em ondas.
Em cada continente há diferenças entre as regiões. Isto é claramente visto na Europa. Os países do sul da Europa (Itália e Espanha) foram os primeiros atingidos em larga escala. Na sequência, os casos começaram a se espalhar por outras partes do continente. Da mesma forma, na África houve maior número de casos na porção setentrional antes do incremento na parte subsaariana. Na Ásia, os países mais a Leste foram os primeiros a serem atingidos, em seguida Ásia Central (Irã incluído), para depois chegar ao sudeste do continente e ao Oriente Médio. Nas Américas, a direção foi do norte do para o sul. A Oceania, por sua vez, foi o último continente a receber a epidemia.
O gráfico abaixo mostra o tempo que cada região demorou para registrar o décimo óbito após a China. Esse critério é arbitrário, mas foi adotado porque mortes são um indicador melhor do que registro de casos e o valor escolhido indica um contágio expressivo. Apesar do subregistro e/ou reconhecimento tardio em algumas ocasiões, o número de mortes representa de forma mais adequada a difusão do vírus do que o número de casos, que depende de critérios subjetivos (que variam) e/ou de testes (e é, portanto, função da quantidade aplicada). O número de dez óbitos, por sua vez, evita que uma região seja considerada atingida pela existência de casos fortuitos e representa uma quantidade indicativa do contágio em larga escala. Da mesma forma, a divisão entre as regiões tem uma dose de arbitrariedade, mas buscou-se agrupar países atingidos na mesma época e com número expressivo de casos. Uma análise futura, com um eventual incremento de casos na África ou no Sudeste Asiático, por exemplo, poderá demandar outra classificação de regiões.

Cada região é representada por dois círculos: um externo, vazado e com borda grossa, e outro interno, colorido e sem borda. O círculo externo representa o pico registrado de mortes diárias; o interno é a situação atual, considerando a média dos últimos sete dias. A distância entre os círculos representa quanto a doença retrocedeu do máximo atingido. Quanto maior a distância, maior o recuo. Nos casos em que os círculos têm o mesmo diâmetro é porque a região apresenta atualmente os valores máximos, um indício do vírus ainda estar se espalhando.
As regiões leste e central (leia-se Coréia do Sul e Irã, respectivamente) da Ásia foram as primeiras atingidas. Pouco depois, a epidemia se alastrou na Europa, começando pelo sul (Espanha e Itália), para atingir em seguida outros países da Europa Ocidental, Grã-Bretanha e Irlanda, os Balcãs, a Escandinávia até se alastrar pela Europa Oriental. Da Europa, o vírus cruzou o Atlântico para fazer vítimas nos Estados Unidos. O país barrou a entrada do coronavírus pelo Pacífico, mas deixou o outro flanco aberto. A análise das amostras predominantes de vírus na América do Norte mostra que é uma variante que passou pelo velho continente. Provavelmente dos Estados Unidos chegou à América Central, assim como na América do Sul, que também teve contribuição direta do contato com a Europa. Outras regiões retardatárias foram o Oriente Médio, o sudeste asiático (incluindo o subcontinente indiano), a África e, por fim, a Oceania. Não é surpreendente que a expansão geográfica do vírus reflita o grau de integração entre as regiões. As áreas periféricas estão nas ondas derradeiras.

O conceito de ondas fica mais nítido ao se observar a curva da epidemia nas diferentes regiões ao longo do tempo. Para minimizar variações diárias, as curvas mostram a média móvel de sete dias de óbitos por milhão de habitantes.
A China foi a pioneira - em registrar casos, a atingir o pico e estar na fase residual. No entanto, esse padrão não fica evidente pela escala do gráfico, pois são muitos chineses e a epidemia esteve confinada em uma região. Pelo mesmo motivo de escala, a epidemia na Ásia Central e leste asiático não ficam visíveis. Nítido, porém, é o comportamento no sul da Europa, que em pouco mais de um mês viu os primeiros casos surgirem e o pico de óbitos. A curva, embora em queda, ainda mostra nove mortes para cada milhão de habitantes. Com alguns dias de atraso em relação à parte meridional, a Europa Ocidental (Alemanha, França, Benelux, Áustria e Suíça) e as ilhas britânicas registraram o crescimento da curva, retardo que se manteve para chegar ao pico e iniciar a trajetória de queda. Na sequência, chegou à América do Norte e Escandinávia, que ainda não atingiram o pico.

Fonte ECDC, elaboração própria
Nota: média móvel de sete dias
As demais regiões ficam obscurecidas pela escala. Para visualizá-las no gráfico abaixo a escala foi alterada no eixo vertical (o valor máximo é de 1 óbito por milhão, contra 15 do gráfico anterior) e no eixo horizontal (começa em 15 de fevereiro em vez de 1º de fevereiro). Há padrões distintos nas  regiões destacadas. Ásia Central e Leste Asiático foram atingidas na primeira onda. No Leste Asiático, porém, apesar da baixa incidência há um ligeiro aumento recente de óbitos, enquanto a Ásia Central está em trajetória cadente. Em outra onda, foram atingidos os Balcãs e o Oriente Médio, ambas as áreas que ainda não apresentam redução do número de casos - o contrário da Oceania.


Fonte ECDC, elaboração própria
Nota: média móvel de sete dias

As demais regiões são as retardatárias e vistas no gráfico abaixo (note a mudança de escala nos eixos: valor máximo é de 0,7 óbito por milhão de habitantes e o início do gráfico é 29 de fevereiro). Um grupo (América do Sul, América Central, Leste Europeu e Norte da África) foi atingido em uma leva anterior e apresenta uma trajetória ascendente pronunciada do número de óbitos (exceto a África Setentrional, que mostra uma queda. Há dúvidas, porém, sobre a qualidade e precisão das informações na região, como salienta um artigo do El País.).  Na última leva, as duas regiões mais pobres do planeta: África Subsaariana e Sudeste Asiático (incluindo subcontinente indiano). A quantidade de óbitos registrada nessas áreas é ínfima em relação à população. Porém, se isso se deve a estar no início do ciclo de contaminação, de falta de dados, se passarão relativamente ilesas ou um pouco de cada é algo que o tempo responderá.

Fonte ECDC, elaboração própria
Nota: média móvel de sete dias




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