No conjunto de gráficos à direita estão os testes efetuados, os casos registrados e os óbitos de cada dia. Os dados reais estão representados pelos pontos e as linhas são as médias móveis de sete dias, para tornar mais nítida a trajetória, amenizando as oscilações diárias.
À medida que a epidemia evoluía foram realizados cada vez mais testes. No início de março não chegavam a cinco mil por dia. Abril começou com mais de 40 mil testes diários e terminou com 60 mil. Ao todo, a quantidade de testes realizada na Itália equivale a 3,6% da população. Foram, até o começo de maio, 2,2 milhões de testes para 60 milhões de habitantes. Uma ressalva importante: o número de testes não representa a população testada, pois um indivíduo pode ser testado vários vezes, mas é um indicativo. Não é explícito também se os testes foram para identificar a presença do vírus no organismo (que indica se está infectado, em um caso ativo) ou de anticorpos (que pode identificar se a pessoa já esteve infectada e se recuperou). Há também as outras questões já mencionadas sobre falsos negativos.
| Fonte: ECDC, elaboração própria Notas: * pontos: dados originais * linhas: médias móveis de sete dias |
No período de ascensão da curva de registros, os testes eram aplicados basicamente em pessoas com suspeita de infecção, em função da restrição de recursos. Com isso, houve dias em que a taxa de positivos beirou os 40%. No pico, os resultados positivos equivaliam a mais de 20% do total (ver linha cinza no gráfico ao lado, que representa o resultado acumulado dos testes). O número de testes, porém, não foi reduzido. Continuou crescendo e, como resultado, o número de testes positivo despencou. Outro efeito é que com mais testes aumentou o número de casos de pessoas com sintomas leves ou assintomáticas identificadas. (O número de casos registrados em qualquer lugar é função da quantidade de testes realizados. Resumindo, se testar vai achar.) No início de maio, cerca de 3% dos testes dão resultados positivos e o acumulado beira 10%.
| Fonte: Oxford COVID-19 Government Response Tracker, ECDC
Nota: Stringency Index - indicador de restrições adotadas
|
| Fonte: ECDC |
No início a taxa de letalidade com retardo de tempo chegou a apresentar taxas superiores a 100%, o que significa que em um dia o número de óbitos era superior ao total de casos identificados sete dias antes. Com o aumento da identificação de casos (resultado do incremento do número de testes), essa taxa despencou, oscilou ao redor de 25%, até assumir uma lenta trajetória de queda. Enquanto isso, a taxa de letalidade "convencional" foi subindo lentamente. Como o número de novos casos subia em ritmo exponencial (de fato e não figura de linguagem), apresentava valores relativamente baixos. Com a epidemia caminhando para o seu final, as duas curvas convergem, conforme esperado (esse é outro bom indicador de sua fase terminal), com 210 mil casos registrados e 29 mil mortes.
Porém, é factível essa taxa de letalidade? Essa é uma das perguntas que surgem. Outras são: qual será a contagem final de óbitos? Qual o real número de contaminados? Deixamos aqui a parte descritiva e passamos à especulação.
Das perguntas acima, a mais fácil de responder é do número esperado de mortos: entre 33 e 36 mil no total, ou seja, algo entre mais três e seis mil vítimas, com 90% delas nos próximos trinta dias e o restante em mais trinta dias, sem contar eventuais revisões de falecimentos passados. Após esse período deverá haver alguns casos (e falecimentos residuais). Fonte: cálculos próprios (a serem apresentados em uma edição futura). Em outras palavras, a Itália, já na fase final de epidemia, deve ter tantas mortes quanto o Brasil teve até agora. A curva de descida é lenta e mais gorda do que na subida, pois há um acúmulo de casos dependente de resolução, em função do período que as pessoas ficam infectadas. Grosso modo, o número de mortes até o pico é de apenas um terço do total; dois terços falecem na fase descendente.
Se esses números assustam, deve-se considerar que são quase 100 mil casos ainda ativos, dos quais 1,5 mil críticos. Olhando de outra forma, isso significa uma mortalidade remanescente entre 3% e 6% dos casos, considerando que novos infectados ainda serão identificados. Essa taxa é inferior à verificada até o momento.
Isso nos leva às outras duas questões - se a taxa de letalidade observada é factível e o número real de contaminados - que estão interligadas. A taxa de letalidade, afinal, é o número de falecidos dividido pelo total de contaminados. Minha opinião, curta e grossa: não, a taxa real de letalidade é muito inferior e, por consequência lógica, o número de contaminados é muito superior.
É fácil justificar a afirmação. Como visto, foram testados até o momento algo como 3,6% da população, o que resultou na identificação dos 210 mil casos. Caso se testasse a população inteira, quantos seriam? Supor nenhum caso a mais não é realista. Seria mantida a proporção acumulada de 9,7% de testes positivos? Ou algo mais próximo das taxas recentes de 3%?
Com a primeira hipótese haveria algo como 5,8 milhões de contaminados e uma taxa de letalidade de 0,6%; na segunda, seriam 2,0 milhões com uma taxa de 1,7%. A se confirmar qualquer uma dessas taxas (ou algum valor entre elas), ainda assim será um número elevado. Estimativas similares feitas para outros países em fase final da epidemia e com elevado número de testes (3% ou mais da população) indicaram uma taxa de letalidade com valores entre 0,1% e 0,8%. Esses resultado são compatíveis com a pesquisa de campo conduzida pela Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) que estima uma taxa de 0,33% no Rio Grande do Sul (e um caso identificado para cada 26).
O número de casos registrados pouco significa em uma epidemia a qual, por definição, todos estão suscetíveis. Se são testados apenas as pessoas com sintomas ou suspeitas, apenas uma parcela será identificada. Com elevado número de infectados assintomáticos, a maior parte passa abaixo do radar das estatísticas. Para evitar essa distorção, pesquisas por amostragem (como o caso da Ufpel) são boas ferramentas. Ou então usar os números de testes em massa e fazer alguns cálculos. Só não serve usar o número de casos de forma cega.
Nenhum comentário:
Postar um comentário