Um tema recorrente do CORONAdiário é a subnotificação e os limites dos números divulgados. Esse é um dos motivos porque as análises costumam abordar os óbitos em vez dos casos registrados, embora já tenha sido salientado que até entre os mortos há uma subcontagem. Em diferentes graus e por motivos diversos, é uma questão presente em todos os lugares, não faz diferença se é a Suíça ou Burkina Faso, embora provavelmente os números helvéticos sejam mais fidedignos do que o do país africano.
Começando do começo, com uma explicação leiga (doutores de plantão, por favor, corrijam minhas barbaridades). Uma epidemia inicia de forma lenta, logo o surto dispara, com crescimento exponencial de casos, literal, não como figura de linguagem. Só que esse ritmo de incremento não pode durar indefinidamente, pois vive-se em um universo finito - há um limite do número de hospedeiros do vírus (indivíduos suscetíveis à contaminação). Com a crescente saturação de indivíduos contaminados, após um tempo atinge-se o topo. Forma-se um platô, em que o crescimento de casos se estabiliza, até entrar em declínio, quando o número de casos novos registrados é cadente. Nesta fase, não é que a contaminação pára; novos casos continuam surgindo, porém em ritmo cada vez menor, até rarearem.
Se a contaminação deixa marcas visíveis, como bolinhas vermelhas pelo corpo, caso do sarampo, é fácil mensurar os casos. Porém, se parte dos contaminados permanece assintomática (ou com sintomas leves confundidos com outros causas, como uma gripe comum), o número real do total de casos é muito difícil de se obter, para não dizer impossível. Assim, o que há são os casos registrados - de pessoas com sintomas e/ou testadas. em geral os de casos são feitos baseados em testes ou diagnósticos clínicos.
Após a contaminação, há um período de incubação até a doença manifestar sinais. No caso da covid-19, estima-se que a incubação varia normalmente entre 5 e 12 dias, mas pode tardar mais de 20. Nesse tempo, a pessoa é um caso ativo e pode contaminar outras até o desfecho: ou ela se recupera ou falece. (Algumas doenças se tornam crônicas, com o vírus presente até o final da vida do hospedeiro, sem recuperação). As curvas que representam os números de óbitos e recuperados seguem o mesmo padrão da curva de casos (que na verdade não é uma curva e sim um histograma), de crescimento, platô e declínio, mas com uma defasagem em relação aos casos, dado intervalo de incubação e recuperação (ou não).
As figuras abaixo mostram ao longo do tempo (i) o acréscimo de novos casos, óbitos e recuperados, e (ii) o acumulado de cada variável. Para simplificação, as curva de recuperados e de casos ativos se referem aos casos registrados.
Fonte: elaboração própria.
Nota: exemplos meramente ilustrativos
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Notícias de que o total de casos ou de óbitos atingiu um valor x não são muito informativas se não forem contextualizadas. Os números acumulados são sempre crescentes, com exceção dos casos ativos, que raramente são citados. Não é possível o total de casos ou de óbitos diminuir, pois não há descontaminados nem ressuscitados. É preciso observar a fase em que a curva está: crescente, estabilizada ou cadente, no caso dos acréscimos (registros de novos caso) ou de crescimento e saturação (para o acumulado).
[Em função dos padrões existentes, é possível estimar o tempo de duração e o número de vítimas a partir da observação dos dados. Para tal existem modelos, como o SIR, baseados no trabalho de Kermack e McKendrick em 1927 e que considera três compartimentos da população: os Suscetíveis (indivíduos não infectados), os Infectados (que podem espalhar a doença) e os Removidos (indivíduos que foram infectados, mas saíram do grupo de infectados, seja pela recuperação/imunização ou falecimento).]
Como se nota, a diferença entre o número de casos reais e o de casos registrados pode ser muito expressiva. Uma forma de se estimar o número real de casos é com pesquisa de campo, em amostras da população. A Ufpel está fazendo um estudo desse tipo no Rio Grande do Sul. A primeira etapa da pesquisa estimou que 5.650 pessoas estevam contaminadas no estado contra 747 casos reconhecidos até então. Estudo feito no estado de Nova York aponta que 2,7 milhões de pessoas podem ter sido contaminadas apenas lá . O resultado preliminar de testes realizados em três mil pessoas mostrou que 13,9% da população do estado - e 21,2% da cidade de Nova York - tinham sinais do vírus. Os números oficiais apontam um décimo desse valor.
Para exemplificar os motivos das distorções dos números, pode-se analisar um determinado momento da epidemia. Em vez de ver o filme, como nos gráficos anteriores em que o tempo está representado, tirar uma foto. A figura abaixo ilustra um momento da epidemia congelado no tempo.
Fonte: elaboração própria.
Nota: exemplos meramente ilustrativos
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A figura é meramente ilustrativa, com o propósito de mostrar de forma simplificada os elementos de uma epidemia. Não é indicativa em absoluto de valores ou proporções.
Na figura acima, um retrato estático de uma epidemia, cada quadradinho representa um indivíduo, A cor mostra a sua situação em um dado momento. Começando pela direita, com os indivíduos em cinza. É o grupo que representa aqueles que não foram contaminados e nem testados. Na metade esquerda, a parte superior indica os indivíduos contaminados, mas não testados. São aquela parcela oculta de casos existentes mas não registrados (para não complicar ainda mais a figura, considera-se que os casos registrados são apenas os testados positivamente). Na parte inferior, envoltos pela linha tracejada verde, estão os indivíduos testados. Uma parte foi testada e o resultado deu negativo (quadradinhos verdes); outra parte foi testada e deu resultado positivo. Envoltos pela linha tracejada vermelha estão os óbitos, com os indivíduos representados por diferentes tons de vermelho. Na parte direita da figura, dentro do retângulo de linhas tracejadas azuis, estão os recuperados (em tons de azul).
O número de casos registrados é função dos testes. Quanto mais testa, mais indivíduos contaminados são identificados. A falta de teste e/ou de identificação é o principal motivo de subnotificação. Assim, um número reduzido de casos pode significar simplesmente que os indivíduos contaminados não foram identificados em vez de um´número reduzido de casos. Os exemplos de Nova York e do Rio Grande citados acima mostram como essa diferença pode ser expressiva.
Outra distorção é que os testes podem apresentar falsos negativos, isto é, indivíduos contaminados, mas erroneamente identificados como não-contaminados. A proporção de falsos negativos varia em função da qualidade dos reagentes empregados (há relatos de até 50% de falsos negativos em alguns lotes de testes rápidos em outros países), do tipo de teste e até do momento em que o indivíduo foi testado (pode não ter tido tempo de desenvolver anticorpos que identificam a sua real situação). (Para mais detalhes sobre testes, veja essa matéria de O Globo).
A falta de testes e/ou identificação influencia também os números de óbitos atribuídos à doença. Como se vê na figura, dentro da área do retângulo de linhas tracejadas vermelhas, há os óbitos testados positivamente. Esse é o número oficial de mortes. No entanto, há também os falecimentos de indivíduos não testados e dos falsos negativos. Revisões posteriores de dados costumam acrescentar mais vítimas às estatísticas. Semana passada, a China reconheceu que mais de mil mortes em Wuhan em meses anteriores foram por causa do coronavírus. No Equador, houve uma revisão dos dados e os números subiram para 22.160 infectados e 1.028 mortos no país. Eram, respectivamente, 11.183 e 560. Mas o número real é ainda maior, pois em cidades como Guayaquil, a prefeitura admite que centenas de pessoas foram enterradas sem terem sido testadas.
Aqui no Brasil, a subnotificação se torna nítida ao se comparar os casos de internação por síndrome respirátória aguda grave (SRAG), termo genérico para se referir a doenças do trato respiratório, que tiveram um salto este ano, com os casos atribuídos à covid-19. (Este tópico foi abordado em uma edição anterior do CORONAdiário e tema de um estudo da Fiocruz).
Por isso em artigo anterior foi feita a ressalva: com tudo isso, vale a pena utilizar os dados? Sim, desde que se conheça suas limitações e com a devida cautela.
Não acredite cegamente nos números de 2,7 milhões de casos. Nem nas 190 mil mortes. Eles servem como um indicador, mas não são a realidade. Mais do que números individuais, valem as tendências das curvas. Observe-as com atenção.
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