refletindo sobre as evidências e limitações de cada processo, além de apresentar uma análise mais detalhada sobre o perfil da transmissão no Brasil por Unidade da Federação e Região de Saúde." Para quem quiser ver o original, está aqui.
É uma leitura interessante e informativa. No entanto, em um ponto, como devido respeito, não dá para concordar. É na parte em que o ministério argumenta sobre subnotificação. Está lá, na página 8:
"Sobre a subnotificação de óbitos, o Ministério da Saúde informa com o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Brasil é robusto e apresenta baixa subnotificação (destaque nosso). Os Estados e Municípios estão sendo orientados pelo Ministério da Saúde a priorizar a inserção de óbitos com suspeita ou confirmação de COVID-19 no sistema, de modo a agilizar o processo de investigação desses óbitos. Além do SIM, os indivíduos que evoluíram para óbito por COVID-19 e que foram hospitalizados em decorrência de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) devem ser registrados no Sistema de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP Gripe). A partir desse sistema é possível ter informações detalhadas sobre os óbitos, especialmente quanto ao perfil demográfico e clínico."
As observações, feitas aqui no CORONAdiário e em diversas matérias publicadas na imprensa, não questionam a qualidade do SIM, nem o esforço do Ministério da Saúde. Elas se baseiam, normalmente, nas constatações que (1) o Brasil testa pouco, logo identifica poucos casos e (2) há uma discrepância entre as mortes por covid-19 e o adicional de óbitos registrados.
O Brasil testa pouco para identificar os contaminados. De acordo com os dados divulgados pelo site Worldometers.info, são 1,373 testes por milhão de habitantes. Com isso, o país está em 82º lugar da lista de 153 países com mais de um milhão de habitantes com número de testes divulgados. Para efeito de comparação, o décimo país da lista (Itália) testou 29 mil por milhão e o 50º (a Hungria), 6,8 mil. Chile, Peru e Colômbia são alguns dos países sul-americanos com mais de quatro mil testes por milhão de habitantes. A subnotificação é, portanto, razão direta da "subtestação" da população. Se levarmos o exemplo ao extremo, se um país não fizer nenhum teste poderá anunciar que não há nenhum caso registrado e não há subnotificação, porque ninguém identificado positivamente deixou de ser incluído nas estatísticas, embora centenas de mortos de causas respiratórias não-identificadas se acumulem à espera de caixões. o que nos leva à segunda constatação, sobre a discrepância de mortes relacionadas ao coronavírus e o número de óbitos registrados.
Diversas cidades brasileiras apontam um crescimento substancial do número de falecimentos nas últimas semanas. A diferença entre as médias históricas e os dados recentes não fecha computando apenas os casos de covid-19 (vide edição de ontem e o caso de Manaus). Há, no entanto, como registra o próprio Ministério da Saúde, um grande número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), como destacado pelo mesmo BEE14 na página 22:
"A Figura 25 mostra o número de hospitalizações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) até a semana epidemiológica (SE) 17 de 2019 e de 2020. Observou-se um incremento de 416% em 2020 em relação ao mesmo período de 2019. Até a SE 17 de 2020, foram registradas no SIVEP-Gripe 70.060 hospitalizações por SRAG no Brasil. Desse total, 13.169 (18,8%) foram de casos confirmados para COVID-19."
Ao coronavírus, são alocadas 3.364 mortes. Influenza causou 143 óbitos e outros vírus respiratórios, 91. Então ficamos assim: como não testamos e, logo, não temos certeza, não atribuímos as mortes à covid-19. São SRAG não-identificadas (4.151 óbitos) e em investigação (1.132).
Talvez não seja subnotificação, afinal. Seja apenas alocação em outras categorias.
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