Que o nível do desemprego deve subir e muito nos próximos meses não é nenhuma novidade. O impacto da recessão vai castigar as empresas e o resultado será menos vagas de trabalho. Algumas empresas poderão se unir a movimentos do tipo "não demita", "preserve o emprego", porém a falta de negócios não deixará escolha a outras. Com maior ou menor intensidade, o facão da demissão atingirá muitas cabeças. Até aqui nada de novo. Só que um outro fenômeno contribuirá para a redução do número de funcionários: o home office.
Mais empresas do que nunca estão vivendo a experiência do trabalho a distância de seus funcionários em larga escala. Quem era reticente a adotar medidas do tipo teve de se render, atropelado pelos fatos. Como diz a piada que correu na internet, o coronavírus fez mais pela transformação digital das empresas do que a equipe de TI, o CTO e o CEO (assim como o racionamento de 2001 fez mais pela eficiência energética do que anos de Procel).
Isso não quer dizer que todas empresas e seus funcionários sabem trabalhar à distância (mas, a bem da verdade, muitas não funcionam direito nem com todos sob o mesmo teto). Não devem ser poucos os casos de infraestrutura deficiente, dependência de documentos físicos, falta de suporte, entre outros motivos para dificultar o funcionamento adequado, sem contar os casos em que a mentalidade controladora impõe uma série de medidas para vigiar os funcionários de casa - que acabam gastando mais tempo preenchendo os formulários de controle do que fazendo algo de produtivo.
Com esses percalços ou sem eles, algumas coisas devem estar sendo notadas: muitas atividades realizadas não agregam nada e podem ser suprimidas sem perda alguma. Em outras, uma pessoa pode fazer a atividade de duas. Em alguns casos, muitas pessoas se revelam completamente desnecessárias, mas não porque o trabalho pode ser feito por outro e sim porque não fazem nada de produtivo.
Essa percepção do excesso decorre de uma mudança básica do trabalho à distância em relação ao presencial. No trabalho em escritório, a pessoa é paga pelo tempo que está à disposição da empresa, não importa o que ela faça durante esse período. Basta estar lá para ser visto "trabalhando". No trabalho remoto, porém, o funcionário não é visto, apenas o resultado do seu trabalho. Foi feito? Ok, Não foi? Ôpa! Há algo mais concreto para se medir e avaliar do que a mera presença.
O trabalho remoto exige que os processos internos sejam mais bem definidos e organizados. Com isso abre-se outra oportunidade: trocar funcionários por linhas de programação. Muitas tarefas executadas são repetitivas e rotineiras, algo que computadores sabem fazer melhor do que pessoas. Não queira que a máquina tenha imaginação ou saiba lidar com exceções (algumas pessoas também falham nesses dois quesitos), mas para simplesmente executar uma tarefa pré-definida e estruturada são imbatíveis. Assim, uma vez que o processo é estruturado, substituir a participação humana em parte dele ou no todo se torna simples. Parece exagero? Uma vez, o fornecedor de um sistema de automatização de call center era perturbado rotineiramente pela gerente de uma área de um cliente. Para resolver o problema, foram feitas algumas alterações no programa, o que permitiu eliminar os funcionários da área, inclusive a gerente, pois não havia mais ninguém para gerenciar. Muito trabalho burocrático corre o mesmo risco de ser substituído por algoritmos de computador.
Com o home office deixando de ser um tabu, as empresas perceberão que não precisam de todos os seus funcionários em seus escritórios. A presença física pode ser reduzida a alguns dias por semana ou por mês. Com isso, não é preciso ter espaço para todos em período integral. Esqueça mesas fixas e territórios individuais. Espaços compartilhados serão mais comuns. Se nem todos precisarão estar lá o tempo todo, o espaço necessário será reduzido. Se eram ocupados dois andares para duzentas pessoas, com apenas cem lugares, um andar pode ser esvaziado, com redução de custos de aluguel e manutenção. Com isso, menos vagas também de recepcionistas, copeiras e seguranças.
Nem tudo é fácil com essas mudanças. Como observado, muitas tarefas terão de ser estruturadas para se poder operar a contento de forma remota. A infraestrutura de comunicações precisará ser adequada para um fluxo maior de informações processadas fora das bases operacionais, como por exemplo, a demanda gerada por videoconferências com funcionários alocados em casa. A segurança da informação (cybersecurity) será ainda mais crítica, com centenas ou milhares de acessos externos. Um programa malicioso infiltrado a partir de um computador doméstico desprotegido é capaz de gerar efeitos deletérios em uma corporação. Medidas preventivas, como acesso limitado por computadores ou celulares fornecidos pela empresa (e com camadas adicionais de segurança), auxiliam na tarefa, embora sempre existam pontos de vazamento. Com a distância, haverá menos interação entre as pessoas, reduzindo o contato social e as trocas decorrentes. Muitas idéias surgem na sala do cafezinho e isso se perde.
Serão novos tempos. Com muitas vítimas no caminho e oportunidades para quem identificar as necessidades emergentes.
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