quarta-feira, 15 de abril de 2020

A volta do fundo do poço

Semana passada falamos dos setores da economia que mais ou menos sofrerão com a epidemia do coronavírus de acordo com as previsões do mercado, traduzidas em cotações das empresas. Hoje atualizamos a análise, após uma semana de altas da bolsa.

Do dia 6 até o dia 14, o Ibovespa passou de 74 mil para quase 80 mil pontos, embora não em linha reta. Para um mercado que roçou os 60 mil pontos não faz um mês é uma recuperação considerável. Otimismo demais dos investidores? Houve um excesso de pessimismo quando se chegou ao fundo do poço recente? Talvez os dois, talvez nenhum deles.

A única coisa certa no momento é a incerteza, em um grau de magnitude acima dos tempos normais. Se até a Carmen Reinhart disse que desta vez é diferente, é que deve ser mesmo*. Quando se vai sair da fase aguda da crise atual, quanto tempo isso vai levar, se os impactos serão temporários, transitórios ou deixarão rusgas mais profundas e como será a volta à normalidade - ou ao novo normal que pode ser bem diferente do velho normal - , são perguntas em busca de suposições.

Fonte: análises do autor, a partir de cotações da B3
No curto prazo, contudo, as indicações são claras e consistentes de forma geral. Todos os setores sofreram perdas consideráveis: o menos atingido foi mineração (só 20%); o mais, atividades ligadas a viagens e lazer (63%)**

A comparação entre os mínimos atingidos em cada setor após 21 de fevereiro, quando o mercado começou a derreter, e as cotações de ontem mostram trajetórias similares. Algumas curvas se cruzam, mas nenhum setor teve uma queda estrondosa (ou mais estrondosa que os demais) e se recuperou espetacularmente ou não sofreu tanto (em comparação com os demais), mas depois estagnou. Entre os destaques na recuperação estão as atividades ligadas a e-commerce e saúde, além de petróleo e gás, que teve o complicador adicional de queda de cotação do petróleo em função das disputas entre Arábia Saudita e Rússia, aparentemente resolvidas.
.
Da amostra de 240 empresas, algumas tiveram perdas menores de valor no período, com desvalorização abaixo de 10%, como Telefônica (VIVT4), Carrefour (CRFB3), Suzano (SUZB5), Hapvida (HAPV3), Odontoprev (ODPV3) e Biotoscana (GBIO33) - as três últimas do ramo de saúde. A que menos se desvalorizou foi AES Tietê (TIET11), alvo de uma proposta de aquisição por parte da Eneva; o pior desempenho foi da Azul (AZUL4), com perda de 71% do valor.

Para receber o CORONAdiário diretamente em seu e-mail clique aqui.


* Carmen M. Reinhart é autora do livro "Desta vez é diferente" (This time is different no original, em parceria com com Kenneth S. Rogoff), de 2009, que mostra que em oito séculos de folias financeiras, toda vez se dizia que aquela vez era diferente - mas não era e acabava em quebradeira.

** Foi utilizada a mediana de cada setor; para a mínima foi considerada a menor cotação de fechamento atingida, independentemente da data. 

Um comentário:

Até onde vai o platô?

Um leitor perguntou ontem por e-mail: quanto tempo dura o platô? A r...