terça-feira, 7 de abril de 2020

Falam de casos registrados e óbitos. Mas e os recuperados, quanto são?

As estatísticas divulgadas concentram-se nos casos registrados e óbitos - e em geral são apresentadas apenas nos valores acumulados. A evolução do dia-a-dia é um importante indicador do espraiamento do vírus, contudo sem destaque.
Um outro dado, porém, é praticamente ausente: o de pacientes recuperados. Afinal, depois de um certo tempo, completa-se o ciclo: contaminação, incubação, sintomas e desfecho. Sua duração é relativamente curta. Entre o início e o fim passa menos de um mês.
A fase de incubação dura, em média, cinco dias (estima-se que pode demorar de um a 12 dias, variando de pessoa para pessoa). A fase sintomática requer a quarentena/isolamento de 14 dias e, em casos mais graves, hospitalização. É nesse período que ocorre se concentram os óbitos, que pode ser mais rápido ou demorado em função de comorbidades pré-existentes, da saúde do paciente, tratamento recebido, entre outros fatores. Ao final, há o desfecho: recuperação ou óbito.
A ausência do número de recuperados impede conhecer um dado crítico para o sistema de saúde - e para toda a população - que é a quantidade de casos ativos. Como ainda não tiveram um fim,  demandam atendimento por parte do sistema de saúde e são foco de novas contaminações. O número de casos recuperados é um indicador de pessoas imunizadas (considerando que não há segunda infecção pelo mesmo vírus).
Ver apenas o número de casos de um país pode ser ilusório. É melhor ter 81 mil casos ou 21 mil casos? Depende. Se dos 81 mil casos, os recuperados são 77 mil recuperados e dos 21 mil casos, são quatro mil recuperados,a primeira situação é melhor. O país com maior número de recuperados aparenta já ter passado pela fase crítica, enquanto o outro terá ainda um período complicado pela frente. O exemplo é real e refere-se à China (com apenas 1,2 mil casos ativos para cuidar) e Bélgica (15 mil casos ativos).
De forma geral, os dados sobre pacientes recuperados são menos completos. Poucos países se preocupam em mapeá-los com o mesmo cuidado que registram novos casos e os critérios para considerar um paciente recuperado não são uniformes. Em relação ao Brasil, o único dado que encontrei foi 127 recuperados no site Worldometer. Esse número não parece refletir a realidade, pelo espaçamento entre as datas com recuperação, pelo pico de recuperação em um dia (114 recuperados - 90% do total)  e pelo último registro ser de 31 de março, como se não houvesse nenhum caso em abril. (Se alguém tiver outro número e/ou outra fonte, por favor envie.)
Em um episódio conhecido, uma amiga teve Covid-19 e se recuperou neste mês (ou deve ter se recuperado, pois a última vez que tive contato ainda faltava cumprir um dia de isolamento). Não sei se ele foi incluída em alguma lista de recuperados. Na verdade, não sei nem se foi incluída em alguma lista de casos, pois foi diagnosticada pela médica, sem exame para comprovação. Não pensem todos são testados, mesmo com sintomas severos ("não é uma gripezinha", ela disse e prometeu um relato para o CORONAdiário.).
Pode-se, no entanto, estimar quantos recuperados há, a partir dos casos e óbitos diários. A partir dos dados do Worldometer pode-se fazer uma primeira aproximação, com estimativa para os recuperados de abril.
A estimativa foi feita de 1º de abril em diante, tendo como base o número de casos ativos de 14 dias antes. Considerou-se que todos tiveram um desfecho no período. Com esse cálculo, chegou-se a um total de 1.534 recuperados em 7 de abril, restando 11.516 casos ativos.
É uma simplificação, mas serve como um indicador. O prazo de 14 dias parece razoável, considerando que a identificação pode ser feita em diferentes estágios, desde a fase de incubação até em hospitalização em caso grave. Na prática, alguns casos ativos terão resolução em um período menor, outros em período maior.
Um segundo cenário - otimista - considerou um período de 10 dias de resolução e não considerou os dados compilados pelo Worldometer. Chega-se a  3.237 recuperados, com 7.534 casos ativos.
Fonte: análise do autor,
Em termos de letalidade de desfecho, calculada pela fórmula (óbitos)/(óbitos + recuperados), tem-se no primeiro cenário uma taxa de 30%, um número elevado, ainda que considerando que parte  considerável dos registros se deu nos casos mais graves, após um pico de mais de 90%, um valor exagerado que parece indicar uma subestimação de recuperados. No cenário mais otimista, a taxa é de 11%, um valor mais razoável, talvez até baixo em função de notificação concentrada em situações severas. Um número intermediário (algo como 2,4 mil recuperados e uma letalidade de 22%) soa como uma aproximação melhor. O ideal seria se houvesse um acompanhamento dos casos e divulgação dos números para se ter um retrato melhor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Até onde vai o platô?

Um leitor perguntou ontem por e-mail: quanto tempo dura o platô? A r...