Os preços negativos do petróleo chamaram atenção na semana passada. Embora decorrentes de um episódio pontual e localizado, houve negócios na Bolsa de Chicago em que os vendedores pagavam para entregar o produto e os compradores recebiam para tê-lo. É preciso entender do que se tratava e porque houve essa aberração.
Na bolsa de Chicago são negociados contratos futuros para a entrega de petróleo. Esses contratos são para um determinado tipo de petróleo (West Texas Intermediate - WTI) entregues em Cushing, uma localidade em Oklahoma onde estão tanques de armazenamento conectados á rede de oleodutos que corta os Estados Unidos. Há contratos para vencimento e entrega em vários meses, mas o mais negociado é para entrega no mês seguinte (e citado como a cotação do petróleo).
Com a proximidade do vencimento dos contratos (eles são negociados até três dias úteis antes do 25º dia do mês prévio à entrega), a conjunção de demanda em queda e armazenamento cheio, levou ao paradoxo dos preços negativos. Os armazenadores passaram a cobrar cada vez mais caro para estocar o produto, pois sua capacidade estava próxima do limite e não havia muito espaço disponível. Com custo crescente de armazenagem, receber petróleo para guardar deixou de ser atrativo, pois a estocagem passou a valer mais do que o produto. Para evitar ficarem com um produto que não teriam onde guardar (ou a estocagem seria muito dispendiosa), os comprados (isto é, quem detinha um contrato de compra, com direito a receber petróleo nas condições estipuladas) passaram a liquidar as suas posições a qualquer preço - e o preço foi caindo caindo até chegar a menos quarenta dólares por barril.
A maior parte dos participantes zera suas posições antes do fechamento do mês, com uma parte ínfima dos contratos sendo executada e entregue fisicamente. Diariamente, o giro de negócios equivale a produção de 12 dias do mundo inteiro. Assim, com muitos contratos em aberto, os comprados começaram a se desfazer de suas obrigações a qualquer preço, até pagando para alguém levar. Como em todo mercado, no momento em que o preço começa a cair pode surgir o pânico entre os agentes, dispostos a perder algo diante de uma expectativa de perder ainda mais em seguida. Ou seja, é melhor pagar cinco para levarem agora do que ter de pagar dez daqui a quinze minutos. Quem estava vendido (isto é, com a obrigação de entregar o petróleo) pode aproveitar para zerar suas posições. Por exemplo: tinha 100 contratos em aberto para entregar, comprou 100 e ficou com a posição líquido de zero, sem ter de entregar e receber nenhuma gota de óleo.
Tanto foi uma questão localizada decorrente das características dos contratos negociados que os contratos com entrega para os meses seguintes mantiveram preços positivos, assim como em outros mercados, como o Intercontinental Exchange (ICE), em que se negocia o Brent (um tipo de óleo extraído do Mar do Norte) e que também é uma referência de preço internacional.
Os efeitos das cotações negativas da Bolsa de Chicago, contudo, impactam diversas transações ao redor do mundo. É comum os contratos de compra e venda terem como referência o preço do WTI, ajustado para o tipo de petróleo entregue, com prêmio ou deságio em função de sua qualidade, considerando aspectos como densidade, quantidade de enxofre, presença de metais, entre outros, além do frete, considerando os locais de origem e destino.
As consequências e os impactos dos preços baixos do petróleo para a economia ficarão para um post futuro (leitores, cobrem-me se eu demorar para escrever).
O assunto de hoje, porém, é sobre preços negativos de eletricidade. Com a queda da demanda, vários países europeus registraram preços negativos semana passada, com destaque para Bélgica (- 90 Euros/MWh) e Alemanha (-80 Euros/MWh). Em menor escala, o fenômeno de preços negativos atingiu a Grã-Bretanha, França, Países Baixos e Áustria. A onda abaixo de zero poderia ter ido além, mas o Mibel, mercado ibérico de eletricidade compartilhado por Espanha e Portugal, impede preços negativos. Não foi a primeira vez que preços abaixo de zero foram registrados, mas não em tantos países e por vários dias.
O mercado inglês foi o primeiro a ter preço zero, mais de uma década atrás, por algumas horas durante uma madrugada. Foi o resultado da forma com que os preços no mercado atacadista eram definidos. Ao contrário do Brasil, em que se usa um "preço técnico", resultado de um programa de computador, em outros mercados o padrão é a formação de preços pelas ofertas dos produtores e disposição de pagar dos compradores (há agentes, em geral grandes consumidores, que estão dispostos a pagar até um teto, deixando de comprar -e de consumir da rede - se o valor estipulado for ultrapassado). Para garantir o escoamento de sua produção ("ser despachado", no jargão elétrico), alguns geradores ofertam preço zero. Isso é comum para geradores de energia renovável que não têm como controlar sua produção (como na geração eólica e solar) ou de energia nuclear (que não tem como desligar suas usinas em função de oscilações momentâneas de preço e tem custo de combustível reduzido). Outros geradores incorreram na mesma estratégia de zerar o preço para garantir o despacho (para evitar ter de desligar a usina e retomar em seguida, o que pode ser custoso e nem sempre é remunerado). Não contavam, no entanto, que a demanda naquela madrugada seria reduzida, a produção eólica elevada e que outros produtores fariam o mesmo, o que levou à madrugada de preço zero.
Preços negativos já tinham sido registrados anteriormente. Na Grã-Bretanha, a primeira vez foi em dezembro de 2019 por uma hora em uma madrugada, em função de preços negativos no continente. Na Finlândia, em fevereiro, a combinação de baixa demanda na madrugada, agravada por uma greve na indústria papeleira, com fortes ventos (e consequente elevada produção eólica) também registrou preços abaixo de zero.
Na semana passada, a baixa generalizada foi efeito da redução do consumo por conta do confinamento da população causado pelo coronavírus com o excesso de geração renovável (eólica à frente) e a decisão de geradores térmicos (principalmente nucleares) de manterem suas usinas ligadas para evitar uma parada custosa.
Há, no entanto, um fator adicional: as subvenções pagas na Alemanha para geradores de fontes renováveis. Como o subsídio é pago em função da energia produzida, esses geradores não são tão penalizados com a queda de preços, justificando ofertas abaixo de zero. Sem isso, provavelmente o preço atingiria zero como piso e de lá não passaria. Com o subsídio, causa-se esta distorção, não imaginada a princípio - aliás, como muitas as distorções causadas por subsídios. Assim, o preço negativo de eletricidade na Europa é fruto de uma anomalia causada pela subvenção existente e não o resultado de um mercado operando apenas pela oferta e demanda.
PARA RECEBER O CORONADIÁRIO EM SEU E-MAIL CLIQUE AQUI
Assinar:
Postar comentários (Atom)
-
A taxa de letalidade divulgada pelo Ministério da Saúde é de 4,6%. Essa taxa é a simples divisão de óbitos por casos registrados. No entanto...
-
Leia o CORONAdiário (média móvel de sete dias) As explicações sobre os gráficos estão nos links abaixo: - explicando o dashboard - I...
-
Duas curvas andam quase em paralelo: os casos registrados e os óbitos. Com alguns dias de atraso, os óbitos alcançam o número de casos regis...
Nenhum comentário:
Postar um comentário