sexta-feira, 17 de abril de 2020

Restrições adiantam? Pelo jeito sim, mas tempo parece ser crucial


Todos os países implementaram medidas restritivas com o intuito de diminuir a propagação do coronavírus. É o que se verifica pelos indicadores do projeto Government Response Tracker da Universidade de Oxford, que abrange mais de 140 países. Apesar disso, a epidemia segue fazendo vítimas. Se esse é o resultado da curva já achatada, sem as medidas poderia ser pior. Assim, para verificar a efetividade das medidas não há como buscar os exemplos contrafactuais, isto é, o que ocorre onde não há restrições. O timing da ação, porém, aparenta impactar o resultado.

O projeto da Universidade de Oxford monitorar as ações tomadas ao redor do mundo. Para medi-las, foi desenvolvido o Stringency Index, composto por vários indicadores: fechamento de escolas, locais de trabalho e transporte público, cancelamento de eventos públicos, campanhas de informação ao público, restrições ao deslocamento de pessoas e controle de viajantes ao exterior. (Para saber mais detalhes metodológicos, veja o paper descritivo aqui.) O índice varia de 0 a 100, de acordo com a adoção e alcance das medidas.

A comparação entre as medidas adotadas e a evolução de óbitos é vista na figura abaixo para 12 países. O número de óbitos acumulados é apresentado em escala logarítmica (eixo da esquerda), pelas curvas laranjas. O rigor das medidas, medido pelo Stringency Index (S.I.), é representado pelas linhas azuis, com a escala no eixo da direita. As escalas de todos os gráficos são as mesmas.

Fonte: Universidade de Oxford/GRT, ECDC, elaboração própria
Na primeira linha estão Estados Unidos, Reino Unido e China. A China foi obrigada a adotar medidas rigorosas com o avanço da epidemia e, após o pico, começou a relaxá-las. Estados Unidos e Reino Unido tomaram algumas medidas antes de registrar mortes, mas foram endurecendo com o aumento dos casos e vítimas.
Os três países europeus com os maiores números de óbitos - Itália, Espanha e França - seguiram o padrão de endurecimento progressivo, chegando quase ao topo da escala de severidade das ações, mas talvez as medidas tenham chegado tarde - já havia  o alastramento de casos que se tornariam fatais em seguida. Países Baixos e Bélgica tiveram comportamento diferente, com o primeiro demorando mais para agir, todavia com resultados similares.
Na última linha estão três países que foram mais precipitados em se precaver: Turquia, Austrália e Rússia. Como resultado, menos mortes, ao menos até o momento.

Na Ásia há outros exemplos de países que começaram cedo com restrições, até pela proximidade e laços com a China. Ainda que as medidas não foram tão rigorosas, o custo em vidas foi muito menor. (A escala de óbitos no gráfico abaixo vai até 10 mil, em vez de 100 mil como no gráfico anterior.)

Fonte: Universidade de Oxford/GRT, ECDC, elaboração própria
A Escandinávia, porém, parece a melhor comparação do impacto do tempo nas medidas para os resultados. A Suécia foi um dos últimos países europeus a  adotar restrições e, quando o fez, foi de maneira mais tímida. Sua vizinha Noruega antecipou-se em mais de um mês e foi mais dura ao ampliar as ações. Como resultado, mais de mil e duzentos suecos mortos contra 130 falecidos noruegueses. A Dinamarca, que demorou a impôr restrições, mas o fez alguns dias antes que a Suécia e foi mais dura, também registra menos fatalidades. Um exemplo de que dias podem fazer muita diferença? (Obs: os óbitos no gráfico abaixo estão em escala linear e não logarítmica como nos anteriores e o valor máximo é 1.500. A diferença da cor do fundo e das linhas é para destacar a mudança da escala.) 

Fonte: Universidade de Oxford/GRT, ECDC, elaboração própria

A comparação do Brasil é mostrada no gráfico abaixo, com outros países sul-americanos.Para eliminar a questão das diferenças de população é apresentada em óbitos por milhão de habitantes, . Colômbia e Argentina se anteciparam na tomada de medidas e foram mais restritivos. Com 2,6 e 2,4 mortes para cada milhão de pessoas, respectivamente, nossos vizinhos apresentam, até o momento, resultados melhores do a marca brasileira de 8,2. Pelo visto, restrições podem não evitar, mas diminuem as mortes causadas pelo vírus.

Fonte: Universidade de Oxford/GRT, ECDC, elaboração própria



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